Veja redações nota 1000 e as dicas dos estudantes

No ano passado, as provas do Enem foram feitas por 3,9 milhões de estudantes e apenas 53 conseguiram tirar a nota 1000 na redação. Veja algumas redações!

(Por Giullya Franco, vestibular.brasilescola.uol.com.br)


O INEP liberou em 17 de março o espelho das redações do Enem 2019, que trouxe como tema a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. Dos 3,9 milhões de estudantes que fizeram as provas, somente 53 conseguiram produzir uma redação nota 1000.


Ana Clara Socha

A estudante Ana Clara tem 21 anos, é de Brasília/DF, e tem o sonho de ser Médica. Ela fez o Enem pela 4ª vez até conseguir a nota 1000 na redação. Ana relembra que treinou muito e fazia pelo menos duas redações por semana, além de sempre conversar com um professor para entender o que deveria mudar e acabar com os erros. A estudante conta como foi a preparação e nas vésperas da prova. “No dia anterior à prova eu revisei todas as minhas redações do semestre para lembrar dos erros que não poderia cometer e também lembrar dos repertórios que tinha usado”, contou Ana.


Leia a redação:

"Embora a Constituição Federal de 1988 assegure o acesso à cultura como direito de todos os cidadãos, percebe-se que, na atual realidade brasileira, não há o cumprimento dessa garantia, principalmente no que diz respeito ao cinema. Isso acontece devido à concentração de salas de cinema nos grandes centros urbanos e à concepção cultural de que a arte direcionada aos mais favorecidos economicamente. 

É relevante abordar, primeiramente, que as cidades brasileiras foram construídas sobre um viés elitista e segregacionista, de modo que os centros culturais estão, em sua maioria, restritos ao espaço ocupado pelos detentores do poder econômico. Essa dinâmica não foi diferente com a chegada do cinema, já que apenas 17% da população do país frequenta os centros culturais em questão. Nesse sentido, observa-se que a segregação social - evidenciada como uma característica da sociedade brasileira, por Sérgio Buarque de Holanda, no livro "Raízes do Brasil" - se faz presente até os dias atuais, por privar a população das periferias do acesso à cultura e ao lazer que são proporcionados pelo cinema. 

Paralelo a isso, vale também ressaltar que a concepção cultural de que a arte não abrange a população de baixa renda é um fato limitante para que haja a democratização plena da cultura e, portanto, do cinema. Isso é retratado no livro "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, o qual ilustra o triste cotidiano que uma família em condição de miserabilidade vive, e, assim, mostra como o acesso a centros culturais é uma perspectiva distante de sua realidade, não necessariamente pela distância física, mas pela ideia de pertencimento a esses espaços. 

Dessa forma, pode-se perceber que o debate acerca da democratização do cinema é imprescindível para a construção de uma sociedade mais igualitária. Nessa lógica, é imperativo que o Ministério da Economia destine verbas para a construção de salas de cinema, de baixo custo ou gratuitas, nas periferias brasileiras por meio da inclusão desse objetivo na Lei de Diretrizes Orçamentárias, com o intuito de descentralizar o acesso à arte. Além disso, cabe às instituições de ensino promover passeios aos cinemas locais, desde o início da vida escolar das crianças, medianta autorização e contribuição dos responsáveis, a fim de desconstruir a ideia de elitização da cultura, sobretudo em regiões carentes. Feito isso, a sociedade brasileira poderá caminhar para a completude da democracia no âmbito cultural."


Dica:Treinar muito e sempre voltar nos erros com a ajuda de um corretor. Além disso, o mais importante é não desistir e acreditar que é possível.




Augusto Scapini


Com 17 anos, o estudante Augusto, de Goiânia/GO, fez o Enem por duas vezes. Ele concluiu o Ensino Médio em 2019 e afirma que começou a aperfeiçoar a escrita desde o 1º ano. Para alcançar a nota máxima na redação, entre algumas técnicas de estudo, Augusto seguiu o conselho do seu professor e separava informações que poderiam ser relacionadas com os possíveis temas. “Em primeiro lugar, me preparei emocionalmente para ficar tranquilo no dia da prova. Depois, a conselho do meu professor de redação, durante o ano separei um caderno para anotar possíveis repertórios socioculturais como citações, teorias e dados de outras áreas do conhecimento como História e Filosofia”, relembrou. Ele foi aprovado em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Leia a redação:

"Aristóteles, grande pensador da Antiguidade, defendia a importância do conhecimento para a obtenção da plenitude da essência humana. Para o filósofo, sem a cultura e a sabedoria, nada separa a espécie humana do restante dos animais. Nesse contexto, destaca-se a importância do cinema, desde a sua criação, no século XIX, até a atualidade, para a construção de uma sociedade mais culta. No entanto, há ainda diversos obstáculos que impedem a democratização do acesso a esse recurso no Brasil, centrados na elitização do espaço público e causadores da insuficiência intelectual presente na sociedade. Com isso, faz-se necessária uma intervenção que busque garantir o acesso pleno ao cinema para todos os cidadãos brasileiros. 

De início, tem-se a noção de que a Constituição Federal assegura a todos os cidadãos o acesso igualitário aos meios de propagação do conhecimento, da cultura e do lazer. Porém, visto que os cinemas, materialização pública desses conceitos, concentram-se predominantemente nos espaços reservados à elite socioeconômica, como os "shopping centers", é inquestionável a existência de uma segregação das camadas mais pobres em relação ao acesso a esse recurso. Essa segregação é identificada na elaboração da tese de "autocidadania", escrita pelo sociólogo Jessé Souza, que denuncia a situação de vulnerabilidade social vivida pelos mais pobres, cujos direitos são negligenciados tanto pela falta de ação do Estado quanto pela indiferença da sociedade em geral. Fica claro, então, que o acesso ao cinema não é um recurso democraticamente pleno no Brasil. 

Como consequência dessa elitização dos espaços públicos, que promove a exclusão das camadas mais periféricas, é observado um bloqueio intelectual imposto a essa parte da população. Nesse sentido, assuntos pertinentes ao saber coletivo, que, por vezes, não são ensinados nas instituições formais de ensino, mas são destacados pelos filmes exibidos nos cinemas, não alcançam as mentes das minorias sociais, fato que impede a obtenção do conhecimento e, por conseguinte, a plenitude da essência aristotélica. Essa situação relaciona-se com o conceito de "alienação", descrito pelo alemão Karl Marx, que caracteriza o estado de insuficiência intelectual vivido pelos trabalhadores da classe operária no contexto da Revolução Industrial, refletido na camada pobre brasileira atual. 

Portanto, fica evidente a importância do cinema para a construção de uma sociedade mais culta e a necessidade de democratização desse recurso. Nesse âmbito, cabe ao Ministério da Educação e da Cultura promover um maior acesso ao conhecimento e ao lazer, por meio da instalação de cinemas públicos nas áreas urbanas mais periféricas - que deverão possuir preços acessíveis à população local -, a fim de evitar a situação de alienação e insuficiência intelectual presente nos membros das classes mais baixas. Desse modo, o cidadão brasileiro poderá atingir a condição de plenitude da essência, prevista por Aristóteles, destacando-se, logo, das outras espécies animais, através do conhecimento e da cultura."


Dica:Planejar um projeto de texto antes de começar a escrever, anotando todos os argumentos e repertórios que vem à cabeça e selecionando os melhores depois. É preciso ter confiança e tranquilidade no dia da prova, pois o seu estado emocional pode interferir na sua capacidade na hora de raciocinar.





Eduarda Duarte

Também com o sonho de cursar Medicina, aos 17 anos a estudante de Goiânia/GO foi aprovada na Universidade Federal de Goias (UFG). A jovem estava no último ano do Ensino Médio e conta que o tema também a pegou de surpresa. Para se sair bem no texto ela procurou falar mais sobre a questão social, já que o Enem puxa muito para esse lado, e destacou a importância de ampliar o público no local. Eduarda fazia duas redações por semana e tentava aplicar no momento que estava produzindo o texto o conhecimento que já tinha e depois pedia auxílio de monitores na escola.


Leia a Redação:


"Durante a primeira metade do século XX, as obras cinematográficas de Charlie Chaplin atuaram como fortes difusores de informações e de ideologias contra a exploração e o autoritarismo no continente americano. No contexto atual, o cinema permanece como um importante veículo de conhecimento, mas. No Brasil, não há o acesso democrático a essa mídia em decorrência das disparidades socioeconômicas nas cidades, as quais fomentam a elitização dos ambientes de entretenimento, e da falta de investimentos em exibições populares, as quais, muitas vezes, são realizadas em prédios precários e não são divulgadas. Portanto, é imperativo promover mecanismos eficientes de integração dos telespectadores para facilitar o contato com filmes, proeminentes na introdução dos cidadãos.

Tendo em vista a realidade supracitada, destaca-se a crescente discrepância entre as classes sociais nos grandes centros habitacionais, o que leva a modificações no espaço. Essa visão condiz com as ideias de Henri Lefebvre, uma vez que, para o sociólogo, o meio urbano é a manifestação de conflitos, o que pode ser relacionado à evidente segregação socioespacial dos cinemas. Nesse viés, a concentração de salas de exibição em áreas nobres está vinculada às desigualdades sociais e configura a elitização do acesso aos filmes em locais públicos em função do encarecimento dos serviços ao longo dos anos. Dessa forma, para uma grande parte dos brasileiros, o entretenimento e o aprendizado por meio das obras cinematográficas, como visto no início do século XX, se tornam inviáveis, restringindo o contato com novos ideais e inibindo a mobilização da sociedade em prol de seus valores.

Além disso, a insuficiência de recursos destinados a exibições em teatros populares é um fator que dificulta a democratização do cinema no Brasil. Isso porque, apesar de Steve Jobs, um dos fundadores da empresa “Apple”, ter corroborado com a ideia do mundo virtual como influenciador ao constatar que a “tecnologia move o mundo”, as redes sociais não são utilizadas pelos órgãos públicos para divulgar apresentações cinematográficas nos centros culturais, presentes em diversas regiões do país. Aliada à falta de visibilidade, a precariedade infraestrutural dos prédios onde tais eventos ocorrem reduz a qualidade de experiência e desencoraja muitos de frequentarem os locais, apesar dos menores preços. Assim, torna-se clara a necessidade de investimentos par garantir o contato com os filmes, essenciais para a instrução e para a integração dos indivíduos.

Desse modo, é imprescindível democratizar o acesso ao cinema no Brasil. Para isso, cabe às prefeituras disponibilizar a experiência cinematográfica à população urbana menos privilegiada, por meio de eventos de exibição em áreas periféricas – os quais devem fornecer programações internacionais e acionais a custos reduzidos -, com o intuito de evitar o processo de elitização cultural em virtude de disparidades socioeconômicas. Ademais, compete ao Ministério da Cidadania promover a visibilidade dos centros culturais nas redes sociais e investir em reformas periódicas, a fim de assegurar a manutenção dos locais. Com essas medidas, assim como na época de Charlie Chaplin, a sociedade terá o maior contato com as novas ideias e as informações do mundo contemporâneo."


Lucas Rios


O mineiro de 18 anos conseguiu o resultado em dose dupla: nota mil na redação do Enem em 2018 e 2019. Neste ano o jovem foi aprovado em Ciências da Computação, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2018, Lucas fez o exame como treineiro, conheceu a prova e aproveitou seu gosto pela área de exatas para desenvolver a redação sobre a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Já em 2019, o papel da escola foi fundamental para que ele se saísse bem na produção textual sobre um tema que não tinha tanto domínio.


Leia a redação:


"O cinema se tornou uma tecnologia com grande potencial expressivo e, por essa razão, é considerado uma forma de arte. Simultaneamente, apresenta elevado valor lúdico, prova pelo recente sucesso de obras como "Coringa" e "Vingadores: Ultimato". Infelizmente, no contexto brasileiro, nem todos têm amplo acesso a tal maravilha. Nesse sentido, percebe-se a existência de problemas sociais e econômicos que dificultam a democratização dessa atividade no país. 

Segundo o economista Ludwig von Mises, um dos grandes nomes da Escola Austríaca de Economia, o homem quando em liberdade, tende a agir buscando a maximização de sua felicidade. Sob essa ótica, nota-se que indivíduos com baixo poder aquisitivo priorizarão serviços de necessidade básica (como alimentação, saúde e moradia) em detrimento de atividades culturais, uma vez que aqueles, por serem essenciais à sobrevivência, lhes farão mais felizes que estes. Assim, a fragilidade econômica torna-se um fator de exclusão de certas parcelas da população nacional do mundo cinematográfico. 

Além disso, de acordo com o Índice de Liberdade Econômica desenvolvido pela Heritage Foundation, o Brasil está entre os piores países para abrir uma empresa. Isso é resultado da alta complexidade tributária e burocrática, que resulta em maiores custos tanto para empreendedores quanto para consumidores. Por não ser imune a tal fenômeno, o setor do cinema sofre com as mesmas consequências, que restringem ainda mais a participação popular nas sessões. Dessa forma, a abertura e simplificação desse mercado são medidas necessárias para democratizá-lo, dado que reduzem os preços. 

Diante do exposto, evidenciam-se os desafios sociais e econômicos para o pleno acesso da população brasileira às obras cinematográficas. Cabe, então, ao Ministério da Cidadania, por ter herdado as funções do extindo Ministério da Cultura, criar, por meio de parcerias com as empresas do setor, entradas gratuitas periódicas para a população de baixa renda, de modo a facilitar a sua participação nas salas de cinema e, consequentemente, popularizar o acesso à cultura. Paralelamente, o Ministério da Economia deve estimular, através de medidas provisórias, a redução de impostos e regulações no mercado citado. Desse modo, concretizar-se-ão os seus valores lúdico e artístico, que serão apreciados pelo povo brasileiro como um todo."


Dica:Aproveitar o conhecimento adquirido ao longo dos anos escolares e saber como empregá-lo no momento da prova, assim como buscar o equilíbrio ao se preparar para o Enem.


Luísa Mello


Aos 20 anos, a estudante Luísa fez o Enem pela 5ª vez até conseguir neste ano a aprovação em Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela estava se preparando em um cursinho pré-vestibular de Belo Horizonte/MG e desde o ano anterior fazia específica de redação. Tinha habito de fazer três redações por semana e buscava muito a orientação da professora para corrigir os erros e ver os pontos que poderiam ser melhorados. Mesmo achando o tema inesperado ela comentou sobre a proposta de intervenção que usou. “Propus à Ancine um incentivo fiscal às empresas do ramo para construírem mais cinemas em regiões periféricas, para reduzirem o preço das sessões em geral e concederem gratuidade de ingresso aos indivíduos de baixa renda”, destacou.


Leia a redação:

"A primeira exibição pública do cinema ocorreu no ano de 1895 na França e, aos poucos, difundiu-se para todas as nações, sendo ainda uma grande fonte de entretenimento, inclusive no Brasil. Além disso, é notória sua função social ao proporcionar aos espectadores tanto uma atividade de lazer quanto uma propagação de informações e de conhecimentos, como os documentários e os filmes contendo alusões históricas. Nesse viés, a Constituição brasileira de 1988 determina o direito ao entretenimento a todos os cidadãos, assegurando o princípio da isonomia. Entretanto, o acesso aos cinemas no país vem deixando, grandemente, de ser democrático, sobretudo devido à segregação espacial e aos elevados custos, ferindo o decreto, o que demanda ação pontual.

Decerto, o processo de urbanização brasileiro ocorreu de forma acelerada e desorganizada, provocando o surgimento de aglomerados no entorno dos centros urbanos. Diante dessa conjuntura, essas periferias sofrem, de modo geral, históricas negligências governamentais, como a escassez de infraestrutura básica, de escolas e de hospitais. Não obstante, tais regiões também carecem de espaços de lazer, como os cinemas, que, majoritariamente, concentram-se nas áreas centrais e de alta renda das cidades. Assim, corrobora-se a teoria descrita pelo filósofo francês Pierre Lévy de que “toda nova tecnologia gera seus excluídos”. Portanto, o cinema, sendo uma inovação técnica, promove a segregação dos indivíduos marginalizados geograficamente. 

Ademais, a maioria dos cinemas pelo Brasil cobram altos valores pelos ingressos das sessões, o que se torna inviável para grande parte da população, haja vista a situação econômica de crise que o país enfrenta, em que muitos indivíduos se encontram desempregados ou possuem baixa renda familiar. Desse modo, descumpre-se a determinação da Constituição Cidadã de igualdade de acesso ao lazer pela população, especialmente um entretenimento tão difundido entre a sociedade e de grandes benefícios pessoais, como a aquisição de informações e a ampliação da criticidade. Por fim, ratifica-se a tese desenvolvida pelo jornalista brasileiro Gilberto Dimenstein acerca da Cidadania de Papel, isto é, embora o país apresente um conjunto de leis bastante consistente, elas se atêm, de forma geral, ao plano teórico. Logo, a garantia de igualdade de acesso ao cinema pelos cidadãos não é satisfatoriamente aplicada na prática, impulsionando a segregação social.

Observa-se, então, a necessidade de democratização dos cinemas no Brasil. Para tanto, é preciso que a Ancine – Agência Nacional de Cinema – amplie o acesso da população aos cinemas. Isso ocorrerá por meio do incentivo fiscal às empresas do ramo, orientando a construção de mais cinemas nas regiões periféricas, a redução dos preços dos ingressos e a concessão de gratuidade de entrada para a parcela da sociedade pertencente às classes menos favorecidas, como indivíduos detentores de renda familiar inferior a um salário mínimo. Dessa forma, mais brasileiros terão a possibilidade de acesso aos cinemas e, finalmente, a isonomia será garantida nesse contexto, reduzindo a desigualdade entre a população."


Dica:Treinar é o segredo da redação e focar em consertar os erros. Escrever sobre diversos eixos temáticos, buscar interdisciplinaridades, ler e acompanhar notícias até se sentir confortável com qualquer tema que aparecer faz total diferença.


Nayra Alves


Nayra tem 18 anos e é aluna do cursinho de redação do Professor Diego Pereira em Fortaleza/CE. Com o sonho de ser Médica, ela já havia feito o Enem para ter experiência, mas em 2019 foi a primeira vez que fez a prova almejando uma vaga. A jovem atribuiu o bom resultado como consequência do medo que tinha da redação, principalmente de não saber nada sobre o tema. “De manhã eu ia para o cursinho, onde tinha bolsa, e passava a tarde estudando. Um dia por semana ia para a específica de redação. Fazia redação toda semana e perto do Enem fazia quatro, cinco redações por semana. Eu tinha um medo surreal de cair um tema que não sabia”, contou. Mesmo não tendo feito nenhuma redação sobre cinema, ela conta que trabalhou com o tema cultura, o que a ajudou a desenvolver o texto. A estudante disse que se surpreendeu com o resultado e que chorou emocionada ao ver a nota.


Leia a redação:

"No Brasil, apesar de a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 215, garantir acesso à cultura a todos os brasileiros, nota-se que muitos cidadãos não usufruem dessa prerrogativa, tendo em vista que uma grande parcela social não tem acesso ao cinema. Dessa forma, esse cenário comprometedor exige ações mais eficazes do poder público e das instituições de ensino, a fim de assegurar a igualdade de acesso ao universo cinematográfico.

Efetivamente, é notório o desacordo que existe entre o que é assegurado pela Constituição e a realidade do país, uma vez que muitos municípios não possuem cinemas ou espaços destinados à exposição de filmes, séries e documentários. Esse nefasto paradigma atesta, sobretudo, uma grande desigualdade no acesso à cultura do país, tendo em vista que em grandes cidades, como o Rio de Janeiro, o cinema é mais valorizado. Além disso, vale ressaltar que tal desigualdade fere a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a qual assegura a produção cultural e lazer como um direito de todos. Logo, é fundamental que o poder público desenvolva medidas, como a construção de mais espaços destinados aos espectadores, com o intuito de que os anseios do artigo 215 tenham realmente vigor.

Ademais, outro fator preponderante é que, apesar da modernização do universo cinematográfico, o qual, atualmente, possui filmes em “3D” e salas de cinema bastante equipadas, muitos brasileiros não conseguem arcar, por exemplo, com o custo do ingresso ou, até mesmo, o espaço destinado à exibição de filmes, como shopping center, é distante do local onde essas pessoas residem, inviabilizando, assim, o acesso à cultura previsto na Constituição. Esse panorama conflituoso explicita a necessidade das instituições de ensino em atuar de forma mais efetiva, promovendo, por exemplo, “noites do filme” na comunidade que se sejam gratuitas, a fim de democratizar o acesso ao cinema, sendo essa uma forma de entretenimento da população, bem como de transmissão de conhecimento.

Portanto, cabe ao poder público intensificar os investimentos no acesso à produção cultural do país, sobretudo, ao cinema, mediante replanejamento orçamentário, que viabilize a destinação de mais verbas para a construção de cinemas nos municípios, com o propósito de que mais brasileiros possam usufruir dessa importante ferramenta para o lazer. Outrossim, as instituições de ensino, como as escolas e as universidades, devem promover a democratização do acesso ao cinema, por meio da exibição gratuita de filmes em, por exemplo, auditórios e quadras escolares em horários noturnos, com o fito de que todas as parcelas sociais possam ser atendidas."


Dica:Praticar! Ler muito, assistir jornal e escrever bastante É importante para dar repertório ao escrever sobre qualquer tema. Manter a calma e controlar a ansiedade também é essencial. 


Vitória Oliveira


Pela segunda vez fazendo o Enem, Vitória conta que estava confiante com o resultado da redação, mas a nota a surpreendeu, mesmo tendo se preparado para isso durante o ano todo. A estudante de Teresina/PI tem 19 anos, estava fazendo um cursinho preparatório, e comentou sobre o tema: “Achei inesperado, porém muito pertinente para o contexto atual do Brasil. Não pratiquei redação sobre cinema, mas sobre cultura”, disse a estudante. Vitória também conquistou a vaga no curso de Medicina, na Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Em sua rotina fazia redações de 2 a 3 vezes por semana. Para isso, ela lia muitos repertórios que ajudavam a absorver e enriquecer os textos.


Leia a redação:


"Em sua obra “Cidadãos de Papel”, o célebre escritor Gilberto Dimestein disserta acerca da inefetividade dos direitos constitucionais, sobretudo, no que se refere à desigualdade de acesso aos benefícios normativos. Diante disso, a conjuntura dessa análise configura-se no Brasil atual, haja vista que o acesso ao cinema, no país, ainda não é democrático. Essa realidade se deve, essencialmente, à falta de subsídios para infraestrutura nas regiões periféricas e à urbanização desordenada das urbes. 

Sob esse viés, é importante ressaltar que a logística de instalação de salas de cinemas, nas cidades pequenas, é precária. Nesse sentido, segundo o Contrato Social – o proposto pelo contratualista John Locke - , cabe ao Estado fornecer medidas que garantam o bem-estar coletivo. Contudo, a infraestrutura das cidades pequenas e médias é, muitas vezes, pouco dotada de incentivos para a construção de salas de exibição de filmes, como centros de lazer – dotados de praça de alimentação, por exemplo. Com isso, uma parcela expressiva da população é excluída dessa atividade cultural, o que, além de evidenciar o contexto discutido por Gilberto Dimenstein, vai de encontro ao Contrato Social. Desse modo, políticas públicas eficazes tornariam possível maior acesso ao direito de cultura, garantido pela Magna Carta de 1988, por meio do cinema. 

Além disso, o crescimento urbano desordenado gerou a concentração de cinemas em determinadas áreas da cidade, o que excluiu, principalmente, os locais pouco evidenciados pelo mercado imobiliário. Nessa linha de raciocínio, o geógrafo Milton Santos atribuiu ao inchaço urbano desenfreado o surgimento de processos como a Gentrificação, a qual “expulsa” a parcela de indivíduos de baixa renda da sua moradia. Devido a isso, a distribuição de salas de cinema ocorreu de maneira desigual, privilegiando áreas nobres. Por conseguinte, as favelas – localidades sem aparatos sociais – possuem pouco ou nenhum acesso à arte cinematográfica, o que evidencia um exército de “cidadãos de papel”. Assim, o cinema pode ampliar o seu alcance mediante a ação de setores sociais que forneça infraestrutura de filmes. 

Portanto, para a efetiva democratização do acesso ao cinema no Brasil, é importante que o Governo Federal, por intermédio de subsídios tributários estaduais, forneça a descentralização das salas cinematográficas no território, a partir da instalação de unidades de cinema nas regiões que não possuem – com aparato qualificado, variedade de exibições e praça de alimentação - , a fim de proporcionar a cultura do cinema para a parcela de cidadãos excluída. Ao mesmo tempo a isso, cabe ao Ministério da Cultura – principal órgão intermediador de políticas culturais no país – propor um vale cinema para aqueles que não possuem renda suficiente para a compra, com direito a pelo menos duas oportunidades mensais, para que o direito aos filmes não seja restrito por critérios censitários. Dessa forma, poder-se-ia atenuar a desigualdade discutida por Dimenstein."


Dica:Manter uma rotina de prática de redações semanais, reescrever as redações com base na orientação de algum professor e absorver o máximo de repertório sociocultural possível.


Júlia Cruz


De Fortaleza/CE, Júlia, estudante do 3º ano, fez as provas do Enem durante todo o Ensino Médio e conta que esperava uma nota boa na redação, mas não que seria a nota máxima. A jovem de 17 anos  se preparava para a prova fazendo as redações semanais do colégio e também buscou o auxílio de um cursinho específico do Professor Diego Pereira para aperfeiçoar o texto e chegava a fazer de 2 a 3 redações semanais. A estudante quer uma vaga no curso de Odontologia.


Dica: Além do treino ao longo do ano, é indispensável se manter informado sobre questões em pauta no governo. Também é importante saber o que os corretores procuram no texto, como a coerência dos fatos e um repertório atualizado. Ser confiante e acreditar no seu potencial.


Letícia Silva


Medicina é o curso que Letícia busca uma vaga. Fazendo o Enem desde 2019, a estudante de Teresina/PI tem 19 anos e produzia de 2 a 3 redações por semana. Letícia também tinha o hábito de treinar com simulados para poder controlar o tempo e chegar preparada na hora da prova. “Fazia reescritura dos textos que eu obtinha menos de 900 pontos e sempre analisava e identificava os meus erros, para ter atenção e não repetir”, relembra a jovem. Surpresa com o tema, ela também destacou que uma de suas propostas foi para estimular a população a frequentar mais os cinemas, já que esse tipo de lazer ajuda a população a obter criticidade.


Dica: Praticar e reescrever as redações para identificar os maiores erros. Obter um repertório sociocultural diversificado e treinar com o tempo que deseja usar no dia da prova. Além disso, não tentar adivinhar o tema e se preparar para debater sobre qualquer tema.


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